Seguindo em Frente na Força do Senhor

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

E disse-lhe: Por Deus, me jura que me não matarás, nem me entregarás na mão de meu senhor, e, descendo, te guiarei a essa tropa. E, descendo, o guiou. (1 Sm 30.15, 16)

 

O inimigo atacou Davi e seus homens, destruindo tudo o que tinham, levando suas mulheres e filhos. Choraram até não poder mais e culparam Davi. Ele se fortaleceu em Deus, foram atrás dos inimigos e encontraram alguém que os ajudou a reconquistar tudo. Este é um resumo da história de 1 Samuel 30.

Talvez, tudo o que você consegue enxergar agora seja dor e aflição. Você não vê portas ou caminhos que possam leva-lo adiante. A angústia é grande e nossa tendência nessas horas é achar que tudo acabou e que não há escape. O desespero nos cega, nos ensurdece, nos paralisa, nos amarra.

Podemos chorar como eles choraram. Até devemos, pois faz parte de nossa natureza e o choro é terapêutico. Ainda assim, só chorar não basta. Isso não vai solucionar a questão.

Podermos reclamar com Deus, como eles provavelmente fizeram, dizendo que não mereciam o que aconteceu. Todavia, o Deus perfeito no qual cremos é livre de qualquer mancha. Culpá-lo é tolice e perda de tempo.

Podemos culpar outros, que podem ou não ser culpados. No entanto, isso também não resolverá a questão. Nossa péssima mania de culpar os outros, não só nos impede de assumir nossa própria culpa, como nos impede de tomar as medidas necessárias. Culpar a outros muitas vezes é uma desculpa para não fazer nada.

Ou podemos ter uma atitude completamente diferente. Podemos reagir em Deus como fez Davi.

Podemos buscar Nele as forças que nunca se esgotam. Pois de nada nos valerá uma fonte inesgotável, com águas cristalinas que não são bebidas; de nada adiantará a água para a nossa sede se não formos em direção a elas para sorvê-las abundantemente. Vã é a mesa farta para nossa fome, se não nos assentar e comermos aquilo que nos está sendo oferecido gratuitamente. Morreremos de fome junto ao banquete e de sede junto à fonte.

Podemos buscar palavras e direções de Deus, crendo que temos um Deus que fala e dirige nossos passos. É preciso confiar Nele e tomar uma atitude que de fato reflita essa confiança. É preciso fazer isso, mesmo que ninguém mais faça.

Eles só encontraram aquele rapaz que os guiou até a reconquista porque se levantaram e foram em frente. Deus preparou aquele moço, que eles jamais encontrariam se tivessem ficado prostrados e chorando.

É preciso que você caminhe, siga em frente, mesmo com lágrimas nos olhos, nó na garganta e aperto no peito. Porque ali mais a frente há ajuda de Deus esperando. É caminhando até lá que experimentaremos a Providência Divina.


 Sobre Livros e Leituras

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os  pergaminhos. (2 Tm 4.13)

 

Em seu último escrito o apóstolo ainda pensa em livros! Ler é uma paixão de muitos e muitos cristãos em seu amor às Escrituras tornaram-se grandes e bons leitores. Alguns são verdadeiros devoradores de livros. Esse é um hábito saudável que deveria ser cultivado ainda mais por todos aqueles que almejam uma vida espiritual vigorosa aliada ao conhecimento da Palavra. Como escreveu Henry Thoreau, os livros são o tesouro precioso do mundo e a digna herança das gerações e nações. (…) Quantos homens terão começado uma nova era em sua vida depois da leitura de um livro.[1] E se pensarmos na influência de Thoreau sobre Gandhi, então ele tinha razão.

 

Gostaria por isso de compartilhar algumas coisas sobre livros e leituras aprendidas ao longo dos anos.

 

Existe a Bíblia e os demais livros. Nenhum livro pode ocupar em nossa vida o espaço que pertence às Escrituras. Todas as verdades mais profundas, ou são dela derivadas ou estão em concordância com ela. Ela e somente ela é a Palavra de Deus, o pão, a espada, a luz, sem a qual viveremos neste mundo, famintos, desarmados e no escuro. Não basta ler acerca de Bíblia. Temos de ler a Bíblia se desejamos de fato ser alimentados, fortalecidos e guiados. Se você não tem tempo para a Palavra de Deus, então é melhor que não tenha tempo para nenhum outro livro. Quanto amo a tua lei! Nela medito o dia todo. (Sl 119.97)

 

Ler livros, mais do que ter livros. Uma grande tentação neste nosso mundo consumista e onde a publicidade nos bombardeira em todo momento e em todo lugar, é acumular livros que nunca iremos ler. Diferente de um CD ou mesmo vídeo do qual somos ouvintes passivos, o livro exige de nós esforço, atenção. Precisamos de tempo, concentração, envolvimento real e profundo com o seu conteúdo. Não compre livros que não pretende realmente ler. Os livros só terão efeito em sua vida se você de fato absorver seu conteúdo. Faça um plano de leitura anual dentro de sua capacidade e disponibilidade de leitura. Como a baliza em uma piscina, você conhecerá seus limites e guardará seu foco.

 

Conheça quem escreve. Não compre livros às cegas. Se alguém de confiança e capacidade o indicou para você, então possivelmente valerá a pena ler. Ainda assim, procure saber sobre o autor e sobre o livro. O que pensa o autor? Que outros livros escreveu ele? Qual sua história? O que ele realizou? Por trás de um livro há uma vida, com a qual vamos interagir na leitura. Devemos ser cuidadosos com quem teremos comunhão. A leitura desordenada entorpece o espírito, ao invés de alimentá-lo (Sertilange).

 

Erudição e beleza não são a mesma coisa que verdade. Escrever bem e bonito, não é o mesmo que escrever a verdade. Muitos já se desviaram das verdades bíblicas, seduzidos pelo conhecimento e pela retórica. Marx e Nietzsche foram grandes pensadores e grandes escritores, mas nem por isso são verdadeiros. O veneno também pode ser saboroso e pode ser vendido em frascos bonitos. Vivemos em meio a uma geração, de cristãos e não cristãos, que estão embriagados por uma literatura de pensadores e teólogos que está longe de ser sadia e bíblica.

 

Suas leituras em certa medida definem você. Leia o que está de acordo com o seu chamado. Embora possamos ser edificados lendo a respeito de vários assuntos, existem aqueles que se harmonizam com nosso chamado. Missionários lerão sobre missões, pastores sobre cuidado pastoral, ministros de louvor sobre música e adoração, e assim por diante. Se você já sabe sobre seu ministério, seu chamado e seus dons, pode focar melhor suas leituras. Jamais teremos tempo de ler tudo que queremos, portanto, temos de ser seletivos. Como escreveu Sertilange: Estabeleçam sua rota e não sigam na esteira do que for aparecendo pela frente.[2]

 

Livros são só livros. Ler um livro é só um passo, não é um caminho percorrido. Não podemos achar que só porque lemos a respeito de um assunto, aprendemos o assunto. Ler livros sobre oração não me torna um homem de oração. Ler livros de homilética não tornam um pregador. Nenhum livro, por melhor que seja, é um fim em si mesmo. Ele não passa de uma pequena luz.

Como escreveu A.W. Tozer: Requer um esforço determinado da mente livrar-nos do erro de fazer dos livros e dos mestres fins em si mesmos. A pior coisa que um livro pode fazer pelo cristão é deixa-lo com a impressão de que recebeu dele alguma coisa realmente boa; o melhor que pode fazer é apontar o caminho para o Bem que ele está procurando. A função de um bom livro é postar-se como um marco de sinalização encaminhando o leitor para a Verdade e a Vida.[3]

 

Não basta ler. Precisamos ler com sabedoria. Deus nos dê graça e nos faça leitores que aprenderão para sua glória.

[1] THOREAU, Henry David. A desobediência civil.

[2] SERTILANGE, A.-D. A vida intelectual. São Paulo: É Realizações, 2010, p.121

[3] TOZER, A.W. A conquista divina. São Paulo: Mundo Cristão, 1987, p.9


 Senhor, Livrai-me da Ingratidão

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

          “Não te esqueças de nenhum dos Seus benefícios” (Salmo 103.2)

 

Livra-me, Senhor, da ingratidão! Livra meu coração de esquecer as muitas coisas boas que fizeste em minha vida. Não permita que as horas escuras me impeçam de reconhecer a tua bondade imerecida que tantas vezes me cercou. Tu me perdoaste tantas vezes, me curaste tantas vezes, me consolaste e cuidaste de mim em tantos momentos que sou incapaz de contar. Encheste minha boca de bens, livraste meus pés da morte.

Eu não quero esquecer nenhum de teus benefícios. O tempo passa e nossa memória se apaga. As bênçãos ficam para trás e então falamos e agimos como quem jamais conheceu teu amor. Ao invés de louvores há murmúrios, no lugar de submissão há rebeldia, revolta e não louvor. Recebi tantos bens, por que não posso suportar os momentos difíceis? Por tua graça estou em pé. Até aqui me ajudaste Senhor!

Não permita também, meu Deus, que eu esqueça todo bem que recebi de meus irmãos e das pessoas ao meu redor. É verdade, muitos me feriram, muitos me magoaram, muitos me desprezaram. Não fui tratado por todos como acho que merecia. Ainda assim, muitos me ajudaram, muitos me consolaram, muitos foram bons para mim. Que os maus não me façam esquecer os bons.

Ensina-me a ser grato, a reconhecer cada pessoa que em algum momento me ajudou, mesmo que essa pessoa em outro momento me feriu. Faze-me ver que não cheguei aqui sozinho, mas fui trazido ou mesmo carregado por pessoas que me amaram e acreditaram em mim.

Talvez eu ache que não merecia o mal que me fizeram, entretanto, também acho que não merecia todo o bem que recebi. E se me alegrei e desfrutei o bem imerecido, também posso suportar o mal injusto e ser grato por aquilo que indevidamente veio a mim.

Que a gratidão a Ti, meu Deus, e aos meus irmãos, possa ser manifestada por palavras e por gestos. Que eu Te louve e Te engradeça, agradecendo também àqueles que me ajudaram a triunfar. Que eu aprenda a contar cada benefício, das Tuas mãos e de outras mãos, e contando-os possa ser grato e me alegrar pela bondade que me cerca.

E por fim, que eu esqueça a ingratidão alheia, como espero que esqueçam também a minha ingratidão. Que cada mal se vá da minha memória como a areia que é levada pelo vento. E cada bem seja para sempre lembrado, produzindo louvor e gratidão. Amém!


 Lutas Solitárias

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

Sou como um pelicano no deserto, um mocho na solidão (Salmo 102.6)

 

Existem lutas em sua vida para as quais Deus enviará ajuda eficaz. Pessoas que você nem conhece estarão ao seu lado, o exortarão, o aconselharão, darão palavras de Deus para você. Como Arão e Hur segurarão suas mãos pesadas até que a batalha termine. Isso já aconteceu e acontecerá outras vezes.

 

Entretanto, nem toda luta espiritual é assim. Muitas delas você terá de lutar sozinho, não haverá ninguém ao seu lado. Terá que experimentar a ajuda do próprio Deus e de mais ninguém. “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo” (Isaías 63.3). A sensação de abandono, de impotência, de fracasso e de perplexidade estará presente como o ar que você respira. Você achará estranho como pode o Deus que tantas vezes se mostrou tão presente e tangível, agora parece cego, surdo e insensível para o seu gemido e suas lágrimas.

 

São lutas interiores que ninguém pode compreender. Como Jacó no vau de Jaboque: Jacó, porém, ficou só e lutou com ele um homem até o romper do dia (Gênesis 32.24). Também Jó deve ter experimentado a mesma coisa. Perdera os filhos, a mulher não compreendia sua situação e aqueles que tentaram consolá-lo se mostraram ineficazes. O contraste entre muitos momentos em suas vidas e essas lutas solitárias parecia ser incompreensível. Estes homens, porém perseveram em suas batalhas e venceram.

 

Há lutas que são nossas, particularmente nossas, e importa para Deus que confiemos somente Nele e em mais nada, nem ninguém. Só Ele será a nossa força, só Ele será nossa vitória. Dependência total. Provavelmente foi isso que Davi quis dizer quando escreveu o Salmo 62: A minha alma encontra descanso somente em Deus, dele vem a minha salvação. Só Ele é a minha rocha e a minha salvação… (v. 1, 2).

 

Não se desespere. Sua luta solitária é a luta dos que estão com Deus. Há momentos que precisam ser assim e Deus sabe o porquê.


 Guiados Por Deus em Meio ao Erro Humano

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

Eu, porém, Senhor, faço minha oração a ti num tempo aceitável (Salmo 69.13)

 

Somos chamados para obedecer a Deus em meio a uma humanidade imperfeita. Ainda que ele levante apoiadores abençoados no caminho que nos traçou, com certeza seremos desafiados constantemente pelos erros humanos. Inúmeras vezes ficaremos reféns de palavras e atos das pessoas. Correremos o sério risco de tomar nossas decisões e fazer nossas escolhas, não de acordo com aquilo que Deus quer, mas reagindo ao que alguém disse ou fez.

Sim. Pessoas nos afrontam, nos magoam, nos traem, nos negam. Pessoas nos esquecem, nos agridem, nos repelem. Inúmeras vezes pagam o nosso bem com mal, nos rejeitam e nos lançam para fora de suas vidas. Fazem isso porque são pessoas e sentir-se ferido em nosso coração faz parte da vivência de cada um. E, no entanto, isso não é o  fim.

Os onze irmãos de José o rejeitaram. Inúmeras vezes Moisés viu o povo ao qual devotara sua vida, voltar-se contra ele. Até mesmo seus irmãos, Miriam e Aarão, procuraram usurpar sua liderança. O pai e os irmãos de Davi o desprezavam e o rei Saul tentou matá-lo apesar de Davi tê-lo servido com fidelidade. Marcos abandonou Paulo em sua primeira viagem missionária e os coríntios, pessoas que haviam conhecido a verdade através de seu ministério, voltarem-se contra ele por instigação dos judaizantes. Ninguém escapa das dolorosas feridas produzidas pela falibilidade humana. E ainda assim, sem a menor prova de dúvida, podemos afirmar que Deus é Senhor de nossas vidas.

Não deixe que a falha de outras pessoas produza falha em você. Não deixe que o erro de outros o faça errar. Não permita que seus passos sejam desviados do caminho do Senhor, por pessoas que não estão agindo no Senhor. Deixe que o Espírito de Deus, que a Palavra de Deus e a vontade do Senhor determine as suas escolhas e mais ninguém.

Viva uma vida pautada pela vontade de Deus e não pelo erro alheio. Caminhe com o Senhor e pelo Senhor, não por uma humanidade que não sabe discernir entre a mão direita e a esquerda. É a Cristo, o Senhor, que você serve. Caminhe com tal firmeza e com tal submissão que pessoa alguma nesta terra seja capaz de desviar seus passos do propósito que o Senhor tem pra você.

 


 Não Quero Ser Líder

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

Senhor, não quero ser líder, não quero estar à frente. Não quero superiores dizendo o que devo fazer. Não gosto de receber ordens, repreensões, cobranças. Enfada-me obedecer pessoas que muitas vezes me dão ordens incoerentes, inconsistentes, das quais discordo plenamente ou em parte. Dói-me obedecer regras que não criei e seguir diretrizes que não  tracei. Quero ser livre em minhas escolhas, completamente livre, sem restrições, limitações, proibições. Mais fácil é sentar-me em meu banco e cobrar de outros os resultados e frutos.

Não quero conduzir pessoas, que nem sempre são mansas como ovelhas, mas geralmente indócis como cabras selvagens. Não quero estar na frente, pois serei criticado por cada falha e esquecido em cada sucesso. Pesarão todas as minhas palavras e julgarão todos os meus atos. Viverei sempre no tribunal do povo, sentado ao banco dos réus. Terei expectativas que não serão atendidas e estabelecerei metas que não me ajudarão a concluir. Todos lançarão sobre mim suas muitas e grandes expectativas e quanto eu não atendê-los se frustrarão comigo e me condenarão. Terei de assumir tarefas que não são minhas e resolver problemas que não criei. Além dos meus já muito e pesados fardos, acrescentarei outros infinitos que não me pertencem.

Por tudo isto, meu Deus, minha carne me ordena a dizer “não” ao teu chamado, ou pelo menos ignorá-lo como se não fosse para mim. Meu enganoso coração diz que não posso, que não consigo, que é difícil e impossível, que não tenho tempo, nem recursos. Diz-me que vou falhar, que vou cair, que vou parar. Olho para o lado e procuro irmãos que são mais aptos e qualificados. Olho para frente e penso que talvez algum dia, mas não hoje….

Todavia, algo em mim não cala… Há uma voz, às vezes suave e às vezes firme, que me mostra algo diferente, o outro lado da questão…

Vejo pessoas sem direção como ovelhas sem pastor. E elas seguem para abismos escuros e espinhentos, mas não há quem as conduza a caminhos seguros. Ovelhas que rapidamente mudariam seus rumos se ouvissem alguma voz, mas não há quem grite. Vejo vidas errando sem luz, caindo sem apoio e chorando sem qualquer consolo. Estão doentes e não há quem as cure, perdidas sem que ninguém as busque. Estão famintas e sedentas, de pão e água também, mas de algo mais. Quão grande é a seara! Quão poucos são os ceifeiros!

E tu tocaste com teu fogo meus lábios, ungiste minhas mãos com teu óleo, acendeste em meu coração tua chama, deste-me teus dons e chamado. Encheste-me de tua glória a ponto de Transbordar. Deste-me teu poder e, poder, eu bem sei, é responsabilidade. Não posso negar o que sou e o que tenho em Ti. Não posso calar como quem não te ouve, nem me acomodar como quem não viu tua glória. Não posso enterrar o talento, nem deixar no fundo das águas o machado que tu me emprestaste. Pecarei se não fizer o bem que posso.

Portanto, ó Soberano Senhor, dos céus e da terra, já não posso conter teu fogo em mim, nem manter calada minha boca se meu coração está cheio de Tua Palavra. Não posso calar como os demais, nem dormir no fundo de um navio enquanto a tempestade assola e uma cidade inteira perece. Não posso receber tanto de teu Espírito e comer tanto de teu Pão e ao mesmo tempo permitir vidas oprimidas, vazias e famintas ao meu lado.  Não posso, Senhor, não posso. Não posso mais conter meu espírito e nem o Teu. Lágrimas vêm ao meu rosto, meu peito aperta por causa do teu chamado. Tua voz agora soa como trovão e tudo o que tenho e sou, dobra-se diante de ti neste instante. Por isso, olho para os céus, ergo ao teu trono minhas mãos e na mais profunda agonia grito:

 

EIS-ME AQUI SENHOR! ENVIA-ME A MIM!

NÃO SEJA FEITO O QUE EU QUERO, MAS O QUE TU QUERES!

 


 A Minha Alma te Segue de Perto

Por Eguinaldo Hélio de Souza

         

A minha alma Te segue de perto; a Tua destra me sustenta (Salmo 63.8)

Quando Davi escreveu essas palavras tão profundas, ele não estava em algum templo em Jerusalém cercado dos benefícios divinos. Ele não estava em um dos momentos mais tranquilos e bem sucedidos de sua vida. Estava no deserto.

Sua presença naquele deserto não foi uma escolha voluntária. Com certeza ele não queria estar ali e muito menos naquelas circunstâncias. Estava sendo perseguido pelo rei Saul sem que houvesse feito nada de errado. Era um inocente sofrendo injustiça, um servo fiel sendo perseguido como um criminoso. Fome, sede, más acomodações, incertezas, ansiedade e medos afligiam sua alma. Todavia, sua alma cantava. Cantava a Deus.

Você não precisa ter tudo o que quer e nem mesmo tudo o que precisa para se achegar a Deus. A alegria, certamente levará você a louvar e a engrandecer ao Senhor. No entanto, você não precisa de olhos secos para fazer isto. Como Davi, você pode se achegar a Deus na noite escura, nos dias tórridos, no deserto incerto, nas calamidades de vida.

Davi, o adorador do deserto, o apaixonado servo de Deus nas cavernas, o buscador do Senhor em meio às piores circunstâncias. Assim podemos ser nós também. Só precisamos ter um anseio contínuo e ininterrupto pelo nosso Deus. Ter a percepção de Sua realidade, de Sua presença, de Seu amor em todo o tempo e em todo lugar.

Nossa alma pode, nossa alma precisa e nossa alma verdadeiramente deve seguir ao Senhor de perto. Nossa proximidade com o Senhor não se mede em metros, não se avalia de acordo com nossa posição social, intelectual, econômica, eclesiástica. Nossa intimidade com o Deus vivo pode ser fortalecida no deserto ou em um palácio, na fartura ou na forme, no sucesso ou no fracasso. Mas ela só acontece quando a desejamos com todo o nosso coração, quando as circunstâncias da vida não têm mais nenhum poder sobre nós e nossa consciência de quem Deus é do que somos Nele, não depende de nada ou ninguém.

Então, quando nossa alma vencer todos os obstáculos internos e externos; quando estivermos próximos do Senhor nas circunstâncias e condições que Ele nos colocou, então veremos sua poderosa mão nos sustentar e nos levar para onde Ele deseja.

Achegai-vos a Deus e Ele se achegará a vós (Tiago 4.8)


 Não Perca o Seu Sabor

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

         

Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. (Mateus 5.13)

 

A.W. Tozer foi um grande profeta. Seus livros continham afirmações de uma profundidade incontestável que expunham as verdades bíblicas de uma forma sem igual. Jamais esqueci uma frase sua. Que a primeira missão da Igreja não é pregar o Evangelho, e sim, ser digna de pregá-lo.

Em nossa ânsia de pregar o Evangelho a toda criatura, é fácil achar que só a mensagem importa. Mas o mensageiro também diz muito. Que pensaria de um bêbado ou viciado de qualquer espécie, dizendo a você que Jesus liberta? Um obeso lhe falando de uma dieta infalível? Ou Hitler pregando sobre amor ao próximo? Mensageiro e mensagem devem estar no mesmo nível. “Que fazes tu em recitar os meus estatutos, e em tomar a minha aliança na tua boca? Visto que odeias a correção, e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele, e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal, e a tua língua compõe o engano.  Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe. Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu, mas eu te argüirei, e as porei por ordem diante dos teus olhos” (Sl 50.16-21)

De nada adianta tentar matar a sede da humanidade com um belo cântaro vazio. Embalagens não nutrem e sim o conteúdo. A maior pregação ainda é o pregador, ou como diria Marshall MacLuhan, grande teórico da comunicação, “o meio é a mensagem”. Não só “o que”, mas “quem está falando” é importante. Antes de ouvir o Evangelho, as pessoas precisam vê-lo. Vê-lo em você e em mim. Só então ele terá efeito.

Quem pensa que farisaísmo foi um movimento judaico dos tempos de Cristo, se engana. Farisaísmo é um comportamento religioso muito freqüente em qualquer lugar e tempo. De repente passamos a enfatizar e divulgar uma mensagem que não vivemos e a elogiar um comportamento que nada tem a ver com o nosso. É fácil se tornar um fariseu. Basta nos gloriarmos da doutrina que temos nas mãos, sem levar em conta que não a temos no coração, tê-la na boca, mas não no espírito. Falamos dela e a descrevemos com grande destreza, mas a vivemos muito pouco em nosso dia a dia. Temos aparência sem essência.

Fico pensando em antigas denominações, que publicam suas histórias, apenas para testemunhar que são apenas sombras do que foram dia. Do belo e doce fruto que um dia foram, só resta uma casca oca. Ainda são sal, mas sem sabor. Luz que não ilumina e fogo que não esquenta. Tornaram-se um paradoxo de si mesmo. Deus nos repreenda e nos livre, não apenas de sermos amargos, azedos ou insalubres, mas também de sermos insossos.


 A Bêncão de Suportar

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

Esperei com paciência no Senhor… (Salmo 40.1)

Uma das orações mais famosas do mundo é a Oração da Serenidade, criada por Reinhold Niebuhr. Ela diz:

Deus, conceda-me a serenidade

Para aceitar aquilo que não posso mudar,

A coragem para mudar o que me for possível

E a sabedoria para saber discernir entre as duas.

Ao longo da vida, muito teremos de simplesmente suportar. Situações, pessoas, sentimentos, demoras. Algumas promessas de Deus exigirão anos para se tornar realidade como foi com José. Certas pessoas estarão ao nosso lado por muito tempo, cujos defeitos não conseguiremos mudar e teremos definitivamente de aguentar. Sofreremos limitações de toda espécie, sendo que algumas conseguiremos mudar e outras, porém, só nos restará suportar.

Boa parte de nossas vitórias serão resultado da nossa capacidade de sofrer, de esperar, de tolerar. O momento certo só pode chegar para quem suporta a demora. “Minha hora ainda não chegou”, disse Jesus. Ele tinha já em si toda potência para realizar a obra para a qual fora chamado, mas seu discernimento sabia que deveria aguardar o lugar e a hora certa..

“Na vossa paciência ganhareis as vossas almas”, disse Jesus. (Lucas 21.19). “Mais vale o homem que domina o seu espírito do que o que conquista uma cidade” disse Salomão (Provérbios 16.32). Nossa carreira cristã estará repleta de momentos nos quais nossa melhor ação será calar e esperar.

José, Ruth, Davi e Jó foram pessoas que entenderam a bênção de suportar certas situações, mesmo desconhecendo quando mudariam. Os quarenta anos de Moisés cuidando dos rebanhos de seu sogro não foram anos perdidos. Foram anos nos quais sua capacidade de suportar foi provada e treinada ao extremo. Ele venceu a monotonia do tempo e do espaço e tornou-se apto para guiar um pesado povo pelo deserto por mais quarenta anos.

Fugir, jogar tudo para o alto, explodir, desistir, fazer as coisas do nosso jeito – são atitudes daqueles que não aprenderam a suportar.

Resistir no Senhor, pelo Senhor e para o Senhor. Eis o desafio de Deus para alguns períodos e situações de nossa vida. A paciência de hoje produzirá os frutos do amanhã.


 No Deserto

Por Eguinaldo Hélio de Souza

 

         

A minha alma te deseja muito, em uma terra seca e cansada onde não há água. (Salmo 63.1)

 

Moisés ficou 40 anos no deserto antes de ser chamado para libertar Israel. O próprio povo de Israel também peregrinou durante quarenta anos no deserto antes de entrar na posse da terra prometida. Davi, depois de ser ungido rei de Israel também teve que fugir para o deserto de Sur, apesar das muitas vitórias que havia gozado antes. Isaías permaneceu três anos no deserto. João Batista permaneceu no deserto até o tempo de apresentar-se a Israel. Jesus foi para o deserto antes de iniciar o seu ministério. É bem provável que quando Paulo se refere à Árabia, trata-se do deserto ali existente. O que há no deserto?

Nada. Por isso Deus tem a chance de ser tudo, chance que ele não tem quando estamos cercados de coisas e pessoas, de projetos e ideias, de palavras e correrias. As inúmeras distrações somem e sem assuntos urgentes e importantes para ocupar nossa mente, este espaço pode ser preenchido por Deus. O tempo parece correr mais lentamente e então podemos “acertar nossos passos com os de Deus”. Temos então tempo para um tratamento intensivo, para operações delicadas e profundas.

Onde não há comida abundante, Deus pode tornar-se o pão da vida. Onde há escassez de água, ele se torna a fonte da vida. A ausência de conforto e luxo torna Deus nosso único consolo. Sem ver ninguém, enxergamos apenas aquele “Alguém” que mais importa. Fracos, só podemos contar com Sua força. As vozes silenciam, as imagens cessam. Então se torna muito mais fácil ver e ouvir ao Eterno. “Enfada-me muitas vezes, ler e ouvir tantas coisas. Em ti está tudo quanto amo e preciso”, dizia Tomaz de Kempis. Em meio ao nada, ele se torna tudo para nós.

Raramente nos será possível um deserto físico. Por isso precisamos do deserto espiritual. É quando parece que tudo que amamos e nos apegamos de repente se encontra fora do nosso alcance. Nada nos satisfaz, nada nos alegra, nada nos consola. As pessoas parecem nos evitar, nos virar as costas, nos ignorar. Até Deus parece distante. “Onde está o Senhor, Deus de Elias?” disse Eliseu quando Elias subiu ao alto. Ele conhecia somente a Elias, que tinha um grande Deus. Agora que Elias lhe fora tirado, o Deus de Elias precisava se tornar o Deus de Eliseu. Não sabemos a origem da angústia. Não temos coragem de dizer nada. Tudo parece sem sentido.

Esta situação, aparentemente calamitosa, nos põe de joelhos. Enquanto outros dormem, somos tomados pela insônia. Ninguém parece notar ou se importar. Fechamos nossos olhos e clamamos, abrimos a Palavra e a corremos em busca de uma explicação ou de uma direção que nem sempre vem. Nem sempre existem estradas no deserto. Tudo parece sempre igual. Isto porque ainda não é hora de sairmos dali. Precisamos estar ali. Não precisamos que Deus nos dê nada, precisamos que Ele seja tudo.

Os desertos passam. Passam mas voltam. Podemos não gostar deles, mas precisamos dele. Muito mais neste era agitada, onde quase nos sufocamos na profunda e forte correnteza de informações e ideias. Precisamos da poda do deserto, da solidão do ermo, do vazio existencial onde seremos cheios do sentido celeste. Quando formos levados, como João, em espírito ao deserto, não temamos, pois de lá sairemos fortalecidos e renovados. Como João, sairemos para profetizar e narrar as visões de Deus.