Carta ao Meu Pai

Por Eguinaldo Hélio de Souza

Já faz cerca de dezoito anos que este silêncio dura, em parte pela distância, em parte pelos sentimentos que dormem, com medo de acordar. Você foi, eu tinha doze anos e desde então estive mudo. E surdo também na maioria das vezes. Nunca me interessou ouvi-lo e nem falar-lhe, nunca me interessou tentar reatar estes laços quebrados. A indiferença muitas vezes é o melhor remédio para a dor.

Hoje, todavia, vou nos dar uma chance, ainda que pequena. Pois mesmo que este papel possa falar e revelar tanta coisa do meu coração, permanecerá surdo e cego. Nunca me dirá de suas lágrimas, de seu gemido ou de seu riso. Nunca conhecerei seu engolir seco, seu murmúrio, sua resposta silenciosa ao ler estas letras. Mas estaremos um pouco mais perto, ligados.

Há motivos para escrever esta carta? Há motivos. Fazer desta carta-confissão um texto literário para um concurso cujo tema é “Pai, um amigo, um herói” é um deles, embora possa parecer ironia. Mas se eu não falar o que falo aqui, não quero dizer mais nada. Não me interessa dizer outra coisa, se não puder dizer o que digo aqui. Minha ficção é minha maior realidade. Não posso falar de outro pai que não você, porque o pouco pai que tive foi você. Se o que eu aqui expuser não for belo, ao menos será verdade. Tenho de ser ético antes de ser poético.

Há motivos para eu escrever esta carta? Há motivos. Você foi um exemplo. Ao inverso. Quero ser para o meu filho aquilo que você não foi para mim. Quero dar o que esperei e não tive, fazer o que jamais me foi feito, dizer palavras que  não ouvi. Seu silêncio tornou-se a voz em mim, suas omissões os meus gestos, seu desinteresse as minhas dádivas. Com a graça de Deus, pude transformar em afirmações, todas as negações recebidas e construir-me pai, com tudo aquilo que não recebi como filho. O fato de não ter pai, fez-me querer de fato ser pai.

Hoje, quando falo com meu filho em seus dez anos, é de você que eu lembro. Quando o chamo de “peão” é porque você assim me chamava. Sim, é verdade que não são muitas as lembranças. Mas justamente por me serem raras é que me são caras e preciosas. Os cabelos índios penteados para trás (brancos hoje?), o andar relaxado o falar alto e cantante, o fumo de rolo, o chinelo havaiana, a bermuda desleixada, a camisa aberta. O fusca branco, a praça onde vendemos balões de gás e brinquedos infantis. As brincadeiras de luta no sofá de casa, o passeio de ônibus ao lado do banco do motorista, o quebra queixo no ponto final. As promessas ditas a esmo, sem intenção de serem cumpridas, as lágrimas e a voz chorosa de partidas jamais realizadas e jamais justificadas. Com exceção de uma que foi para sempre.

Por incrível que pareça, estas memórias falam mais alto do que sua indiferença com as necessidades básicas do lar, marcam mais fundo do que suas brigas violentas com minha mãe, do que a ignorância com respeito aos filhos (você nunca sabia quantos anos eu tinha ou em que série estava).  O vazio desses dezoito anos foram fortes o suficiente para me criar você. Carrego a figura de um pai que não foi, mas que é exatamente o que devia ter sido. E esta imagem é forte, mais forte talvez do que se fosse tangível, mais bela do que se eu com os olhos pudesse olha-la, perfeita com um quadro que não sei pintar, mas que no íntimo da alma teci, com a sabedoria que Deus e os anos me deram. Você está aqui, um você não-você, meu pai não-pai, me inspirando a ser o que você não conseguiu, me impulsionando a terminar sua missão inacabada – fazer de e com seus netos o que você não pode fazer comigo, ser para eles o que você não foi para mim.

Procuro revolta dentro de meu coração e não acho e até me condeno por isto. Eu tinha apenas doze anos, os outros quinze, treze e seis e tivemos de enfrentar a vida sem você. Estudamos, trabalhamos, lutamos, vencemos, vivemos. E tudo isso sem você. Eu com certeza justificaria uma mágoa, mas ela não existe, nem nunca existiu. Não existiu também, é verdade, nenhuma  procura, nem um anseio ou busca para reatar laços. Apenas deixei que a vida tomasse o rumo que tomou, qual canoa à deriva na correnteza. Nada fui, além de mero espectador.

Agora porém, como vaso que cai, quebro o silêncio e deixo escoar seu conteúdo. Nesta carta digo o que jamais disse e até mesmo o que jamais quis pensar. Exteriorizo segredos profundos, sentimentos velados, pensamentos completamente particulares. Surpreendo-me dizendo estas coisas a um pai que de certo modo não tive, cuja existência se vê atestada por uma completa ausência, cuja participação se fez justamente por nunca ter participado de nada.

Penso agora que isto foi minha riqueza, chegando quase a agradecer-lhe por não ter estado aqui. Foi como se você tivesse me deixado, como única herança, um livro inacabado ao qual cabia a mim e só a  mim completar. E esta tarefa só seria possível por que você não estava ali, dizendo-me o que escrever. Dessa forma, pude idealizá-lo, santificá-lo e vivê-lo da forma que eu gostaria que fosse. E o livro ficou bonito. Quase posso sentir sua aprovação a ele.

Estranho o que escrevo aqui. “Pai, um amigo, um herói”.  Talvez meus leitores preferissem que eu falasse do pai perfeito. Como fazê-lo se eu não o tive ? Não tive o que queria da vida, mas amo o que a vida me deu. Acho que você não foi para mim o bom pai que quis ser. Eu o serei então por você, para redimi-lo. Se outros acham que eu não posso fazê-lo, eu lhes direi que posso, dizer que você pai, foi um amigo, um herói. Do seu jeito.

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